Carta aberta do handsurf de Alagoas para o Brasil – Vejam o Vídeo

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Me chamo Léo Silva. Mas no mundo do esporte, especificamente do handsurf de Alagoas sou conhecido como Léo “Curren”. Antes de tudo, preciso dizer que esta carta tem a intenção de somar no esporte.

Léo Silva em ação. Foto: Arquivo Pessoal

Não é sobre dividir. Mas sim unir. Até porque torço e trabalho em prol do crescimento do esporte e não em sua fragmentação. Desde os 15 anos de idade e hoje aos 48 anos sempre tive o mar como alicerce da minha vida. E há três décadas atrás, quando o handsurf de Alagoas surgiu eu estava presente com outras pessoas que também tinham um propósito em comum: expandir o handsurf de Alagoas.

Pelas praias de Jacarecica, Cruz das Almas, Camping e Francês treinávamos bastante para realizar as manobras que víamos no surf. Isso mesmo, as mesmas manobras que surfistas como Martin Potter, Tom Carroll e Tom Curren faziam em pé nós tínhamos a intenção de performar com uma prancha na mão — que chamamos aqui em nossa terra de “palmar”.

Foi até por buscar realizar rasgadas perfeitas e majestosas como as de Tom Curren que acabei “ganhando” seu sobrenome. Anos se passaram e cá estou eu. Ainda permaneço praticando o handsurf de Alagoas, talvez não com a mesma excelência nas manobras. Mas sigo empenhado em passar nosso “patrimônio” esportivo para outras gerações. E tenho tido motivos de sobra para me sentir cada vez mais empolgado com o cenário que estou observando exatamente agora.

Afinal de contas, o handsurf de Alagoas atualmente é praticado em outros estados do nosso país e também fora do Brasil. Claro que as dificuldades ainda se fazem presentes nesse processo de expansão, seria tolo omitir isso.
No entanto, preciso reforçar que o nosso esporte é genuinamente alagoano e com isso quero dizer com todas as palavras que a forma que praticamos o handsurf aqui em Alagoas é única, ou seja, não existe em nenhum lugar do mundo.

Bem, agora até existe em outros pontos geográficos já que conseguimos germinar essa semente na Bahia, Natal, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Chile e tantos outros lugares. Mas tudo partiu daqui de Alagoas. E por ser um pioneirismo absoluto, acabamos por criar nossas próprias regras uma vez que tivemos problemas em participar de eventos em outros estados, por causa da nossa ser diferente daquelas tidas como convencionais.

Nilton Luís em ação. Foto: Lucas Rodrigues Palmas

Mas onde quero finalmente chegar? Naquela época, nos anos 80, não tínhamos internet e, portanto, não sabíamos nada que pudesse estar relacionado ao handsurf. Únicas fontes que tínhamos acesso eram revistas de surf e fitas VHS, porém não encontramos nada que falasse sobre handsurf nelas. Fizemos então contatos com a ACSP (Associação Carioca de Surf de Peito) na através de cartas e nos foi explicado bastante interessante.

Não poderíamos participar dos eventos porque eram competições de bodysurf e que bodysurf era praticado apenas com nadadeiras e não com pranchas de mão. Foi inclusive a partir disso que começamos a entender que nosso esporte era algo único, pois não se tratava de bodysurf. Daí em diante começamos a repensar a estruturação de nossos eventos competitivos e chegamos a uma conclusão: a unificação das regras é algo urgente a ser feito.

É muito difícil sairmos daqui do Nordeste — e agora falo pelos outros estados da região que também praticam nosso handsurf — para competir em outros lugares do Brasil. Uma vez que os critérios de julgamento geralmente adotados valorizam muito mais manobras advindas do bodysurf ainda que em uma competição de handsurf. Afinal, será que eu com meu palmar consigo executar a manobra delta ou superman? A prancha atrapalha nessas horas, mas acredito que esse não seja o ponto. Precisamos olhar para a dificuldade de execução de manobras quando falamos em handsurf.

Como comparar um cutback com um parafuso? Como comparar um floater com a manobra telefone? Por diversas vezes observamos nas competições que a quantidade tem sido suprema quando comparada à qualidade. Em outras palavras, aquele que na categoria handsurf realizava 4 parafusos em uma onda conseguia obter uma nota superior a do atleta que realizava uma batida de front side na parte crítica da onda. Quem surfa entende que o parafuso é uma manobra básica que vem do bodysurf e que realizar uma batida de front side requer, primeiramente, um bom bottom turn, leitura e timing da onda. E mais do que ir apenas com seu palmar de encontro ao lip da onda, você precisa projetar seu corpo junto. Do contrário não é uma batida.

Handsurfista em ação. Foto: Divulgação / Federação de Handsurf de Alagoas

Ano passado o handsurf clube criou um livro de regras baseado no da WSL e com algumas adaptações para o nosso esporte. Tivemos um Congresso Técnico onde pudemos apresentá-lo para os atletas, juízes de competição e todos aqueles que estavam interessados no tema. Hoje este livro de regras encontra-se na Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e São Paulo e temos a intenção de tornar público para mais e mais pessoas.

E qual o objetivo principal? Unificar as regras no Brasil de modo que todos os atletas, independente de onde sejam ou venham, tenham suas performances julgadas de igual para igual, com critérios bem definidos e condizentes. Não estamos impondo nada. Pelo contrário, queremos conversar, ouvir opiniões diversas e unir as pessoas em prol da organização do esporte. Queremos apenas mostrar que as regras podem ser melhores e mais justas se forem atuais e progressivas. E com isso, tornar o handsurf mais competitivo já que o que eu vi até hoje no handsurf mundial são manobras muito limitadas, as mesmas que podemos ver no bodysurf: parafuso, parafuso invertido, el rollo.

Aproveitando o ensejo, gostaria de levantar um ponto para refletirmos. Será que se o handsurf da forma que praticamos aqui tivesse sido criado não em Alagoas, mas em outro lugar do Brasil como na região Sudeste, no Rio de Janeiro talvez, teria mais força? Teria maior representatividade? Citei o Rio de Janeiro por se tratar do berço do bodysurf brasileiro, com um elevado número de praticantes e por ser palco de muitos encontros e competições da modalidade.

Salomão Dias em ação. Foto: Ar Photo Esporte

Gostaríamos de unificar o handsurf em âmbito nacional para que a gente possa participar de forma justa em outros estados e vice-versa. Há quem cogite que a falta de atenção a nossa proposta de padronização de regras tenha relação com o fato de o handsurf de Alagoas ser um esporte criado no Nordeste. Confesso que isso já me passou pela cabeça por algumas vezes, mas espero que essa hipótese não seja real. Apenas acho que já passou do momento do cenário mudar já que o handsurf de Alagoas está em evidência nacional e mundial há alguns anos.

Assim, peço que os responsáveis ligados às associações, entidades, ligas e etc., olhem com carinho e respeito para o nosso livro de regras, bem como nosso esporte, para que consigam compreender que ao incluir tais regras só teremos a ganhar em todos os eventos de handsurf do Brasil. Todos nós ganharemos, pois o handsurf de Alagoas não é melhor e nem pior do que o handsurf tradicional. É apenas diferente. Justamente por essa razão quero que cada vez mais as pessoas conheçam a forma que praticamos esse esporte. Forma esta tão peculiar, progressiva, radical e, sobretudo, atual.

*Léo Curren é tricampeão alagoano (1991, 1992 e 1993) pela antiga Associação Alagoana de Handsurf, sendo que em 2012 conquistou a etapa única do Campeonato Alagoano realizada pela Federação Alagoana de Handsurf.

VEJAM O VÍDEO ABAIXO A ENTREVISTA DE LÉO NO CANAL ELA NO MAR:

Mais informações:

https://www.instagram.com/paradaleticia/

https://www.youtube.com/c/ElaNoMar

Reportagem: Leticia Parada

Texto: Léo “Curren” Silva

Edição: Edson “Adrena” Andrade

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